quarta-feira, 8 de abril de 2009

DE VÍSCERAS À MOSTRA E ARROGÂNCIA ESTAMPADA - O CASO DO ABORTO E A EXCOMUNHÃO PROMOVIDA PELO BISPO DO RECIFE

Desde a primeira semana do mês de março, uma notícia vem repercutindo nos jornais e telejornais do Brasil. Fala-se, evidentemente, da excomunhão da equipe médica pernambucana e da família da menina de 9 (nove) anos de idade que foi submetida a um aborto, entre os dias 03 e 04 de março, em uma maternidade pública do Recife, para a retirada de dois fetos concebidos através de estupro praticado pelo padrasto.
Em entrevista, Dom José Cardoso Sobrinho, bispo de Olinda e Recife, autor da excomunhão, afirmou, em meio às suas palavras, que a “lei dos homens” não está acima da “lei de Deus”, portanto, não pode ser referência argumentativa para justificar a prática do aborto. Em outros termos, nada poderia justificar a interrupção de uma gravidez, ainda que suas condições de origem e manutenção, neste caso, o abuso sexual e o risco à vida da criança gestante, existissem.
Comandada por um dos seus integrantes mais conservadores (o Papa Ratzinger), a cúpula da Igreja Católica apoiou a decisão tomada por sua autoridade local, em Recife.
Embora, aparentemente, a maioria da população, que é católica, tenha se posicionado de forma contrária à postura da Igreja, é preciso ainda analisar o caso concreto, a fala do Bispo, a relação que a excomunhão estabelece com a necessidade de manutenção de poder da Igreja para trazer à discussão alguns elementos fundamentais que ajudam a repensar o vínculo entre a fé católica e o mundo.
Primeiro, em uma sociedade hierarquizada, desigual, injusta, baseada na cultura do “jeitinho” e do favorecimento pessoal que a retro-alimenta, os pobres só podem ter como sua esperança transformadora, como mola propulsora de suas vidas, como fonte de sua dignidade, a existência de Deus. É Deus que se transforma em medida de justiça, na vontade de superar a impotência instalada pela ordem quase intransponível de coisas. É Deus que promove a igualdade em valor de todas as pessoas, segundo dizem, através de sua infinita bondade, sabedoria e compaixão. Por isso, esperam alcançar a outra vida para encontrar-se com Deus e com o paraíso que um dia foi negado no mundo real.
Comumente, ouvem-se expressões tais como:
– Se não somos iguais neste mundo, somos iguais perante Deus. Diante Dele, somos irmãos.
– Espero em Deus esse sofrimento um dia acabar.
– Não podemos com essa situação agora (referindo-se a um momento de impotência), mas Deus pode. Um dia essa injustiça vai acabar. Vamos encontrar com Deus e seremos felizes.
É certo que muitas dessas frases foram plantadas pela própria Igreja para justificar sua existência e a intermediação que fazia entre Deus e as pessoas. Mas, hoje, ela povoa o imaginário popular, sobretudo, o imaginário do povo mais humilde, como expressão de sua esperança, como força motriz, e, esta força é a única coisa que possuem.
Segundo elemento, o termo comunhão significa abraço, ligação, que se faz, segundo a fé, através do mundo íntimo-espiritual entre cada um e cada uma com Deus. Compreendendo que a Igreja, embora se diga como o meio exclusivo para esse vínculo, se Deus existir, não é a única intermediária entre Ele e os seres humanos. Poderia até ser uma intermediária, mas nunca a única. Pois, se, como dizem, Deus está em todos os lugares, inclusive no coração das pessoas, esta ligação também se faz individual e diretamente, sem participação de terceira pessoa. Essa participação, muitas vezes, é o que pode causar “ruídos” na comunicação entre Deus e as pessoas, do mesmo modo como ocorre no universo comunicacional corriqueiro quando promovido através de intervenientes.
Terceiro elemento, se Deus existir, por um lado, Ele é tão grandioso, com efeito, tão complexo, que qualquer visão sobre sua existência seria sempre uma visão parcial de Deus. Sua apreensão completa, até porque é algo abstrato, invisível, ou seja, é algo ou alguém com quem não se pode conviver cotidianamente no mundo físico, que se materializa tão-somente na fé das pessoas, seria incognoscível, ou seja, nenhum conhecimento teológico seria bastante para elaborar uma tese perfeita sobre Deus. Por conseguinte, qualquer interpretação de sua vontade, de sua forma, de suas determinações, se é que estas existem, será sempre parcial, quem sabe, uma imposição unilateral de um ponto de vista também particular de Deus.
Sob este prisma, quando o Bispo, para justificar sua (des)medida, invoca a superioridade da “lei de Deus” sobre a “lei dos homens”, além de descartar, evidentemente, a possibilidade de Deus ter sido criado, em suas diversas nuances, no oriente e no ocidente, pela incapacidade humana de explicar certas circunstâncias da vida, de pronto vem à mente algumas perguntas inevitáveis: a) se toda visão de Deus é uma visão parcial, quem diz ou quem tem o poder de dizer a “lei de Deus”? b) quem atribuiu a Igreja o poder de dizer o que Deus pensa e quais as obrigações “legais” que determina para as pessoas? c) como são transmitidas as “leis de Deus” e sob que fundamento a Igreja justifica a sua condição de falar em nome de Deus para punir, para castigar, para perdoar, para ligar os seres humanos com a divindade? d) em nome de que a Igreja usa o seu modo de pensar sobre Deus como único?
Se Deus é percebido, tal como foi posto paradoxalmente pela própria Igreja Católica, como a representação da suprema bondade, da suprema compaixão, ao mesmo tempo, como Ser que está em todos os lugares e em todas as pessoas e que não pode ser conhecido com toda a certeza, no mínimo, a excomunhão promovida pelo Bispo não passa de um ato de prepotência e de pretensão. Afinal, acreditando na sua versão de Deus como a única vigorante é que exerce todo o seu dogmatismo e se arvora, não se sabe por que motivo, da condição de representante da vontade de Deus, inclusive, para dizer que alguém não é digno desse mesmo Deus.
Por outro lado, o “desligamento” de Deus que paira, mais ainda, sobre família da menina, que é pobre e que tem Deus como único bem precioso, porque a medida de sua dignidade e de sua própria existência, é, de fato, tirar tudo o que essa família tem, que é a sua dignidade em Deus, que é a sua esperança em Deus, que é a sua igualdade em Deus, e, portanto, a sua fonte da vida. Para um pobre tirar Deus, é tirar tudo o que ainda lhe resta para viver. Se está “desligado” de Deus, se está proibido de “ter” Deus, está proibido de ser gente, de usar a força que ainda lhe resta para levantar a cabeça e continuar sua trajetória pelo mundo.
Destarte, o ato da excomunhão dessa família, é também um sadismo por parte do Bispo e de sua Igreja. Não somente porque ele afirma ser a Igreja benevolente em não excomungar a menina por ser “menor de idade”, mas porque ele sabe, a Igreja sabe e todos sabem que, em casos como esses, não importa se a gravidez era de risco, se poderia ocorrer a morte da criança gestante ou do bebê ou dos bebês que ela carregava; não importa se os bebês pudessem nascer mortos e que entre morrerem três, era melhor garantir a sobrevivência da menina. O que, de fato, a Igreja objetivaria era a continuidade de seu poderio, mesmo morrendo a criança gestante e seus dois fetos.
A força eclesiástica sempre foi sustentada através do modelo de família que a ela tem como fundamental, baseado na procriação, na pureza, na supremacia masculina e na submissão da mulher por sua condição biológica de ter filhos. O único elo que ainda mantém o núcleo familiar de hoje ligado àquele pensado pela Igreja no Século XVII é a negação do direito ao aborto. É este modelo de família patriarcal que sustenta a ação da Igreja através de sua existência e que se sustenta através da Igreja. Juntos, sociedade patriarcal e poder eclesiástico, criam e abusam de uma hierarquização entre os seres sociais para se manterem no exercício do poder político (leia-se poder político como capacidade de ditar comportamento).
É importante perceber que esse sadismo da Igreja, que, “usando o nome de Deus em vão”, age em seu próprio favor, não é novo. Valendo-se de sua suposta condição de mandatária exclusiva da divindade, justificou a escravidão, as fogueiras da inquisição, a eliminação de árabes nas Cruzadas e dos indígenas na América Latina, e vêm justificando a negação de direitos aos homossexuais e às mulheres. Por sua intransigência em relação à camisinha e ao uso de anticoncepcionais, vem contribuindo para o aumento da AIDS na África e para o superpovoamento de algumas áreas pobres do planeta, sendo que este já não suporta mais a quantidade de pessoas, o consumo exacerbado e a destruição da natureza. Tudo isso, em favor da manutenção de seu próprio poder.
Foram necessários séculos para que a Igreja reconhecesse a sua insanidade histórica em relação a alguns grupos humanos. Diante disso, quantos anos mais serão necessários para que a Igreja Católica reconheça que suas atitudes são apenas a representação de sua própria vontade de permanecer no mundo como religião única? Quanto tempo mais será preciso para que a Igreja entenda que suas atitudes ajudam a criar a intolerância, que, se Deus existe, negam o supremo amor de Deus, cuja vontade só pode exigir o respeito entre as pessoas, independentemente de sua condição peculiar, e não pode criar um modo de viver que impeça o mundo de ultrapassar todas as formas de opressão? Quanto tempo mais a Igreja vai levar para reconhecer o seu papel em propagar a AIDS e a destruição do planeta? Quanto tempo mais essa arrogância de não reconhecer os seus erros e a sua fragilidade, própria de toda criação humana, vai manter a Igreja Católica com a barriga aberta e suas vísceras expostas, agonizando com sua perda de credibilidade, enquanto, paradoxalmente, mostra-se incólume e impávida, dando as cartas em nossa sociedade contra a própria sociedade?

Texto de José Humberto de Góes Junior (Advogado de Movimentos Sociais, Mestre em Direitos Humanos, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Aracaju no biênio 2008-2010, Professor do Curso de Direito da Faculdade de Sergipe – FaSe, Assessor Jurídico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe).

domingo, 18 de janeiro de 2009

08 de julho - a experiência de um acidente e outra vivência

Durante muito tempo relutei em escrever a experiência de ter passado por um acidente de carro no mesmo dia em que realizava o sonho do mestrado. Mas, passados meses desse momento e já superados os traumas que poderiam ter resultado daquele instante[imagino], jamais poderia deixar de absorver o aprendizado que uma vivência como essa pode ensejar.
Pensei muito antes de escrever qualquer coisa. Se, por uma lado, acreditava que precisava parar e pensar em todo o ocorrido, por outro lado, supunha que expor conclusões, certamente parciais [ninguém é capaz de compreender completamente uma experiência], seria uma bobagem, uma ridícula expressão típica de tempos tecnologia da informação, através de que se torna público ou que nem sempre precisaria sê-lo. Em outras palavras, temia estar absorto de um novo modo de vida capaz de me incitar a crer na necessidade de se mostrar, de transformar vivências pessoais cotidianas em um grande espetáculo para o mundo.
Como este não é um blog conhecido e divulgado; como sua utilização se dá, por minha parte, como um local de registro de experiências, resolvi que, em algum momento, relataria o acidente do dia 08 de julho de 2008, próximo das 8h da noite.
Antes de tudo, para que não gere qualquer tipo de especulação, o fato de colocar o acontecimento com reprodução do número oito não tem intenção em manifestar ou dar margem para coincidências numerárias ou cálculos numerológicos. É simplesmente um dado que poderia ser expressado de outras formas, por exemplo, entre 7h30min. e 8h da noite, ou 19h30min. e 20h. Quis expressá-lo relacionando data, ano e horário. Foi uma escolha linguística, tanto quanto ter saído de João Pessoa, após um dia inteiro de expectativas, cansaço e de muito dispêndio pessoal.
Mas, eu queria participar de um momento importante como a comemoração dos 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente em Brasília no dia 10 de julho. Para tanto, precisava estar em Aracaju na manhã do dia 09 e pegar o avião rumo à capital federal na tarde deste mesmo dia. Optei por dirigir à noite e chovendo. É certo que vinha acompanhado de Greg e Margaux (um casal de amigos franceses que viajara comigo pra João Pessoa), tinha pedido ajuda de Robson Anselmo com a condução do carro durante a noite e tinha convicção de que não precisaria correr, de que podia chegar em Aracaju no meio da manhã da quarta-feira.
Margaux e Robson, mais prudentes do que eu, diziam do seu desconforto em viajar à noite com chuva, pediam pra dormirmos em João Pessoa com o compromisso de sairmos às 4h da manhã. Mas, eu resolvi arriscar. Não sem cuidados, mas resolvi arriscar.
Como sabia que o casal francês poderia querer viajar como fizeram na ida pra João Pessoa, revezando-se no banco de trás para dormir, pedi que colocasse o cinto de segurança e que não tirassem em momento algum. Isso foi crucial para que nada acontecesse durante o acidente.
Mais ou menos uma hora após sairmos de João Pessoa, após uma chuva que nos impedia de enxergar o caminho que tínhamos para percorrer, enquanto a fila de carros em que nos encontrávamos se dissipava, resolvi sair da média entre 40km/h e 60km/h para 80km/h. Minha idéia era impedir a passagem de uma carreta que dava jogo de luz e acelerava em minha direção. Supunha que se começasse a chuva novamente teria que ficar atrás de um “muro da insegurança”.
De repente, olho pelo retrovisor e vejo um carro “costurando” entre os demais. Em alta velocidade, ultrapassava quem podia. Apesar de me alertar quanto a sua passagem, levei um susto com quando cruzou na minha frente e saí um pouco para o acostamento. Tentei voltar sem reduzir a velocidade e o carro, que tinha pneus novos, roçou o lado do pneu dianteiro direito no desnível da pista para o acostamento, jogou o fundo,atravessou a pista, girou no ar e caiu numa vala de um pouco mais de 2m de altura. Era a construção da duplicação da BR 101 entre Recife e João Pessoa.
Por sorte, ainda tive presença de espírito para, quando percebi que o carro havia saído de meu controle, não tentar frear ou segurar o volante. O risco de ficar rodando na pista seria grande e, como vinham carros atrás e adiante, poderia ser o fim de todas as pessoas que estavam comigo e meu também.
Por questão de milésimos de segundos, mantive a calma, fiz a opção que parecia mais plausível e esperei. Não havia mais o que fazer. De olhos abertos, vi os faróis dos carros lateralmente entrando no carro, ouvi um abafado “hugh” de Robson e alguns sons emitidos por Margaux. Minha esperança era de que todos ficassem bem ao final de tudo.
Ao paráramos, ainda com uma dor no pescoço, só queria mesmo era saber se todos estavam bem, sem qualquer dor pelo corpo. Ainda sem saber muito bem o que tinha acontecido, mas mantendo a calma, pedi desculpas aos companheiros e à companheira e agradeci. Não sabia bem a quem ou ao quê, até porque passava por um momento de discutir comigo mesmo minha crença em Deus, mas agradeci o fato de estar vivo e de poder continuar a experiência de ter experiências [a vida].
Liguei para minha irmã, Fabíola, que ia com um grupo em uma van fretada para trazer alguns amigos para a defesa. Passavam por Recife, quando minha irmã pediu que parassem para aguardar que nós chamássemos a Polícia Rodoviária Federal e um guincho que retirasse o carro daquele local.
Minha alegria pela aprovação no mestrado, fazia de mim uma pessoa anestesiada e tranquila. Pronta para resolver todos os problemas. Só não sabia como reagiria ao encontro com minha mãe, integrante do grupo que ia no outro carro e que tinha lutado muito para conquistar aquele carro.
E foi difícil realmente. Quando avistei minha mãe, só pensava em pedir desculpas, nada mais. Todas as falas de culpabilização foram expressadas por todas as pessoas, e eu só tinha como possibilidade o pedido de desculpas.
Não era tempo de conversar sobre os fatos, eu mesmo queria absorver as experiências do momento, mas não conseguia. Era tudo muito recente e ainda estava no calor da emoção.
Somente dias depois consegui chorar e expulsar os sentimentos que acumulava na cabeça. Durante semanas, tive a impressão de que o dia 08 de julho não tinha acabado. Três meses depois, não lembro exatamente porque, mas, talvez, porque tenha conseguido refletir.
Hoje, sei que, na vida, sempre corremos riscos e que caminhar é correr riscos. Mas, por outro lado, não posso ser negligente, não posso expor a vida de outras pessoas; preciso reconhecer ainda mais os meus limites para não querer fazer tudo ao mesmo tempo. A paciência precisa ser minha palavra de ordem, de modo que não é apenas que a ação não precisa estar aliada ao resultado que gostaria de alcançar e que devemos fazer tudo o que pudermos para transformar o mundo. Mas, minha ansiedade por transformações no mundo não pode fazer de mim a única pessoa apta a realizar intervenções transformadoras, que não posso cumular responsabilidades sobre minha cabeça, que não sou invencível, que posso padecer.
Por outro lado, aprendi que a vida é curta, que não posso deixar de viver sentimentos importantes em nome, exclusivamente, da ação social.
Por isso, fiz a escolha, após a realização de alguns trabalhos, de passar por uma intervenção cirúrgica para superar uma miopia de 4,25.
Somente após dez dias começo a enxergar de novo. Tive um atraso na cicatrização.
Foram dias sem sair de casa, sem poder realizar os trabalhos que me dispus a realizar, sem poder aproveitar o restante dos dias que as férias de professor me permitiriam aproveitar. Fora a preocupação de alguns amigos e de minha mãe, foi minha companhia a música e os pensamentos. Mais uma vez, exercitei a paciência.
Na verdade, não foi apenas a paciência que exercitei. O medo de não voltar a enxergar, minha dúvida quanto à existência de Deus, o temor de que o meu ateísmo fosse castigado com a cegueira, também me povoaram.
Imaginava como seria viver agora sem a fotografia, sem poder escrever, sem poder ler... mas, ambiguamente, pensava em que ficar sem enxergar completamente podia me ensinar. Era o momento em que a viagem que me ensinou tanto e que foi motivo para a existência desse blog fazia seu aniversário de um ano. Lembrava das pessoas que conheci, das experiências que vivi.
Todo o tempo, revivia e revia as paisagens, as pessoas, os horizontes e as esperanças que tive um ano atrás quando iniciei o caminho pela América Latina.
Hoje, penso que, se não tivesse tido esse tempo, não poderia ter exercitado a lembrança como deveria. Não poderia ter exercitado outros sentidos, algo que tanto prego para pessoas que desejam enveredar pela educação popular em direitos humanos e na luta pelos direitos da criança e do adolescente.
Agora, volto a enxergar [não completamente ainda], mas posso registrar a experiência e a reflexão ainda inacabada de instantes que fazem parte do ser em que estou me transformando.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Alucinação - Belchior

Uma certa vez, estava conversando com um amigo do Piauí (Lucas) e falava sobre formas de lidar com a vida. Prontamente, ele me disse:
- Tem uma música que é a sua cara.
- A minha cara?, perguntei.
Ele disse:
- Sim. Veja isso... e me passou pelo msn a música que me fez começar a buscar mensagens na poesia de Belchior.


Aí está a minha Alucinação...



Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais...

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...
Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...
Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...
Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...
Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...
Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!...
Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog"Play it cool, Baby"
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Agora tenho 30 anos

Passa da meia-noite e sinto uma necessidade imensa de escrever. Já sou um homem de trinta anos completados no dia que acaba de se encerrar, mas, antes de dormir o sono dos balzaquianos (uma leve analogia ao livro de Honoré de Balzac para as mulheres de trinta anos), preciso deixar fluir os pensamentos que reverberam as palavras de minha mãe, para mim, neste dia.

Em alusão a Freud, esta repetição pode ser uma tentativa de, a partir do vínculo intenso e profundo que mantemos com as mães, compreender o seu conjunto de palavras e de preocupações; uma forma de promover a tradução intergeracional ou interpessoal de valores e de modos de vida. Neste caso, entre a forma de viver que adotei pra mim e o sentido que minha mãe gostaria que eu desse a minha própria existência.

A todo momento, vem-me a cena em que ela, lentamente, deixa-se entrar na sala em que estudava, em que lia um livro libertador (A ideologia de Paulo Freire), e afirma com um sorriso leve nos lábios:

- Você tem 30 anos... meu filho, você já tem 30 anos e o que você tem, o que você conquistou? Quando é que você vai começar a pensar na vida?

Apesar de sua fala, eu sabia que ela não tinha sentido. Pelo menos, do meu ponto de vista do que significa conquistar, do que significa pensar na vida. Era um esforço grande estar absorto de todas as conquistas diante de alguém que me olhava e tentava me oferecer como uma receita o seu significante para “vitória” sem poder e sem querer travar debates profundos sobre o assunto.

Na verdade, eu não sei se entendia o porquê da fala. Afinal, ninguém foi tão testemunha de minhas lutas do que minha própria mãe. Mesmo sem compreender, sem me compreender, sem acreditar na importância de algumas delas, minha mãe foi sempre a maior testemunha de que minha vida é plena. São 30 anos de muitas conquistas, de muitas vitórias, de muitas felicidades. São 30 anos muito bem vividos, com experiências, com vivências, com vivenciamentos, que poucas pessoas da minha idade puderam construir.

Mas, o que minha mãe queria dizer em torno da conquista em nada tinha de semelhante com o que foi a minha vida inteira. Somente no âmbito das situações visíveis e mais convencionais ao mundo apegado a títulos e ao triunfo individual, cada dia de minha existência foi uma grande prova de fogo e cada prova se vinculava a um grande projeto de minha vida: terminar os estudos; alcançar um curso de direito de uma universidade pública; construir um escritório de advocacia que se dedicasse a trabalhar para os oprimidos; fazer um primeiro mestrado e ter que abandoná-lo pela necessidade de trabalhar para sobreviver; enfrentar um segundo mestrado com grandes dificuldades financeiras para poder alcançar a possibilidade de, um dia, poder ensinar numa universidade pública...

O que mais poderia ser uma conquista? Essa era a minha conquista!

Não posso dizer que chego aos 30 anos como um possuidor de bens, ao menos dos bens que muitas pessoas supõem serem os mais importantes. Mas, chego aos 30 anos feliz, pleno de sorrisos, pleno de amor, pleno de poesia, pleno de sonhos, pleno de música, pleno de ser gente, pleno de ser criança, pleno da crença de que posso errar e de que posso acertar, pleno de pessoas ao redor, pleno de perseverança, pleno de vontade de seguir lutando, pleno de fragilidade e força para, todos os dias, acordar, contemplar o novo dia e agradecer pelo fato de poder estar vivo e lutar.

Cada dia, quando acordo, agradeço pela possibilidade de seguir lutando.

Por isso, era mais um dia em que estava feliz. Tinha passado um dia sereno, um dia de reflexões, um dia de sorrisos e de lembranças impulsionados pelos recados que recebi no Orkut de pessoas que fazia muito tempo que não via, mensagens por e-mails, telefonemas.

Eram tantas declarações de amor, de amizade, de respeito, de admiração...

Minha própria mãe tinha me feito o que eu mais gosto que se faça no dia do meu aniversário: um caruru.

No início da noite, tinha recebido a visita inesperada de Lídia, Kátia, Aninha, Andréa e Roberta, companheiras de lutas pelos direitos da criança e do adolescente em Sergipe, cantando parabéns na porta da minha casa, diante de quem quisesse ver e ouvir, me presenteando com abraços e com uma tentativa de cancã...

Mas, nada disso foi visto. Foi preciso a pergunta que, quase sem a sensibilidade de perceber o que mais me importa, me indicou como um ser sem bens, um ser que havia deixado de pensar na própria vida.

Minha reação, ao contrário do que pensei que seria, foi tranqüila. Ainda tentei explicar alguma coisa, até perceber que nenhuma explicação daria conta de expressar tudo o que significa, para mim, ter vivido o que vivi, com tantas conquistas. Entre estas, estão a certeza de que tudo o que se fiz de minha vida construiu esta mesma vida, de que tudo o que sou ou estou sendo é tudo o que fiz sabendo sempre o que estava fazendo, é o conjunto de minhas dores, de meus sorrisos, dos atos de amor que se voltaram a mim, dos atos de amor que eu mesmo fui capaz de produzir, é um pouco de cada pessoa com quem encontrei, são as nuvens que cacei, são os abraços sinceros, são o chão e a água, são o vento e o mar, é a música, são os pequenos gestos de carinho e de afeição.

E, pensando nisso, por um momento me vi andando de novo pela América Latina, como se do alto dos Andes, olhasse o caminho que percorri e dissesse: essa é a minha conquista.

Eu podia ver as pessoas; eu podia ver meus amigos; eu podia ver o ser humano que foi se formando em cada momento de sua vida, com a certeza de que todos os instantes foram vividos com intensidade; eu podia agradecer.

Que mais eu poderia querer? Que mais eu poderia chamar de conquista? Que mais podia representar a minha vitória?

Nada!!!!!

As pessoas são a minha maior conquista. Viver e ser feliz todos os dias é a minha maior conquista. Estar com o mundo e com os outros é a minha maior conquista.

Quanto aos meus bens, nenhum bem é mais precioso do que recostar o coração em outro coração dentro de um sincero abraço.

Diante de todas essas crenças, que mais podia eu senão me tornar possuidor de mais desses bens. Se é no contato com o mundo que se lhes adquire, fui em busca de meus amigos.

Acumulei novos abraços, doados por Pablo, Silvinha, Biel, Vinny e Ize.

Fui merecedor do compartilhar feliz de Adônis por sua formatura e de Kelly por sua gravidez. Tudo isso no mesmo dia.

Agora, tenho 30 anos. E, além da idade, tenho, num mundo de incertezas, mais certeza de penso na vida, de que sou um vitorioso e de que devo seguir lutando para merecer os sorrisos e as palavras que pude receber no dia que acaba de acabar.

domingo, 9 de março de 2008

O que representou Taís na viagem...

Embora a viagem tenha acabado fisicamente no dia 25 de janeiro, não tenho conseguido para de refletir sobre sua importância em minha vida. Já pensei que, pela grande quantidade de experiências, pudesse me sentir demasiadamente pleno, completo, sem mais necessidades de busca, sem mais para conquistar enquanto ser humano, mas, de fato, o que me faz seguir esta viagem em terra é o processo de assimilação das novas, intensas, inéditas e profundas experiências vividas para o meu cotidiano.

Muitas vezes, retomo fotos, retomo conversas e, com isso, retomo todas as sensações que povoaram muitos momentos daqueles dias, me sinto de novo inebriado de latinoamericanidade, mas também de um crescimento humano imensurável.

É dentro deste diálogo comigo e com as pessoas, enquanto relato as experiências, que descobri a importância de Taís em toda esta viagem, apesar de só tê-la encontrado no meio do caminho. E, isso, porque não consigo olhar para a viagem por pedaços. O que fica em mim é toda a complexidade da caminhada. As reflexões que me vêm não chegam aos pedaços. Somente o todo é que faz sentido, enquanto experiência vivida, enquanto aprendizado. Portanto, Taís não é uma parte da viagem, ela me ajuda a compreender toda a viagem. E, mais interessante é que a sensação que tenho, ao pensar assim, é que cada coisa, enquanto caminhava, aconteceu a seu tempo. Existe uma complementaridade fundamental entre todos os instantes, cujo tempo e o espaço se fundem na experiência.

Pensar em Taís é o mesmo que pensar em Tilcara e em Juan. Esta viagem não faria sentido algum sem estas pessoas e sem aquele lugar. Como bem me disse Juan, há lugares pelos quais a gente passa e é como se não tivesse passado e há outros lugares que tomam uma intensidade tão grande que valem toda uma viagem. Agora, pensando em Taís, pensando em Juan, compreendo que estes lugares valem toda uma viagem por causa das pessoas. Sem elas, eles não valeriam absolutamente nada. Ao mesmo tempo, esta predisposição das pessoas em estar com as outras, sua forma de ser, sua doação, só fazem sentido quando se compreende o lugar ocupam no mundo.

Quando digo isso, quero afirmar que as pessoas não podem ser se não se conhece o lugar delas em dois sentidos: o seu lugar de fala, sua compreensão do mundo, suas vivências, suas inclinações; e, literalmente o lugar em que vivem, seu espaço.

Afinal, qual o sentido de alguém ser? Quem pode ser? Como se pode ser? O ato de ser é um ato que está em si ou no outro?

Evidente, estas são perguntas extremamente complexas e, talvez, isso daria um grande tratado de psicanálise. Como não é o objetivo fazer um tratado de psicanálise ou o de colocá-la a serviço de um conhecimento disciplinado, longe do mundo da vida, espero poder responder a estas indagações através de algumas reflexões e de mais questões, das quais as primeiras não se independizam e as quais não encerram as possibilidades de análise: há possibilidade de ser sem o espaço coletivo, se não vivêssemos com outras pessoas teríamos a possibilidade de ser? Se não houvesse quem nos reconhecesse, seríamos algo ou alguém? E, mais, é possível ser sem as interações que fazemos com o mundo? Que lugar ocupam as nossas experiências com o mundo e com os outros na formação do nosso ser?

Com estas últimas perguntas, já me aproximo de novo do que gostaria de falar quando buscava compreender a importância de Taís na viagem. Mas, ainda não é o momento de discorrer diretamente sobre o assunto. Antes disso, será necessária uma contextualização maior, bem como a análise das indagações acima ou mesmo de uma resposta complexa para minhas dúvidas primeiras, de uma resposta que reúna todas as perguntas em uma única reflexão.

Nesta direção, sei que é impossível separar o reconhecimento que o outro tem em relação a nós do que pensamos de nós mesmos. Sei que o que somos está muito povoado do que pensam de nós e das idéias que se constroem em torno de nossa forma de ser. Mas, ao mesmo tempo, suponho que este reconhecimento que se tem de nós e que temos de nós é um ato de interação, um ato que mescla as condições do lugar em que estamos com as interações humanas. Isto porque, reconhecer está no ato mais simples de enxergar o outro, de perceber o outro, até o ato mais profundo de conhecer o outro, de saber de suas potencialidades e limitações, de se encantar ou de negar encantamento com a forma de ser do outro. Reconhece

r, em contrapartida, é sentir a presença do outro, saber que não pode ocupar o seu lugar no espaço enquanto esta pessoa estiver ali. Ou seja, é, igualmente, um ato físico, um ato de percepção, aliado à compreensão de que não se pode circular de qualquer modo em certo espaço povoado de pessoas ou de uma pessoa. É um ato que está acoplado à percepção de que é preciso desviar de alguém que está a nossa frente quando queremos seguir adiante, de que não podemos atravessar o corpo de alguém se queremos pegar algo que se encontra próximo deste. E, quando falo corpo, evidentemente, não quero deixar de perceber que corpo é mais que um objeto, que ele representa uma pessoa, um ser, cuja existência se dá na interação complexa entre seu físico e as idéias que, através dele, é capaz de criar sobre outras pessoas, sobre o mundo e sobre si mesmo, capaz de orientá-lo a ação, ao comportamento.

Retomando, toda interação ocorre sobre um espaço e só podem ser compreendidas no seu conjunto, porque vivenciadas no seu conjunto, com as sensações que o espaço, que as limitações e/ou permissões que este vai provocando no ato mesmo de vivenciar.

Dou o exemplo de duas pessoas para quem que o ato de amar está proibido ou está escondido, está ainda oculto aos olhos de certas pessoas. A interação com o espaço para vivenciarem toda a relação, o aguçamento dos sentidos para poderem deixar fluir o prazer sem terem o desgosto do flagrante, ficam muito presentes. Quem viveu isso em algum momento da vida sabe de que falo. Não se pode descuidar dos acontecimentos que se dão no espaço, nem aqueles externos a quem quer vivenciar sua relação nem aqueles que ocorrem entre quem quer vivenciar sua relação. E, ao final, quando sentam ambos para dialogar sobre o momento, impressionante, que a vivência é observada em completo, nada se aparta, nada tem menos importância. Tudo é a experiência. A parte está no todo e todo está nas partes. Se uma das partes é retirada, não se tornará somente uma parte, será uma outra experiência. Espaço e tempo não se separam como não se separam os momentos, sensações, situações que compõem o todo.

Portanto, jamais poderia ser latino-americano, me deparar com a minha latino-americanidade, como gostaria no início da viagem se não conhecesse a América Latina. Para conhecer um povo, preciso conhecer o seu lugar e o modo como ele interage com este lugar.

Antes, queria apenas conhecer as pessoas e não percebia que, para isso, precisava conhecer o seu lugar. Temia encontrar lugares bonitos, receava encontrar lugares cujo sentido para muitas pessoas era exclusivamente turístico, e não os buscava. Até mesmo rechaçava.

Quando encontrei Taís, que estava em busca de lugares bonitos, quando coloquei os meus propósitos em diálogos com os seus propósitos, percebi, ainda que não conscientemente, que valia a pena encontrar-me também com lugares, mesmo quando os lugares ficavam mais distantes devido aos poucos recursos financeiros.

Taís me ensinou a buscar alternativas para interagir com os lugares, para chegar até eles. Se eu podia caminhar durante horas no meio da cidade para observar as pessoas, para conversar com as pessoas, para conhecer novos amigos, podia sair da cidade, podia pegar uma bicicleta e sair de um lugar para outro, podia caminhar pelas estradas em direção montanhas, cachoeiras, podia superar o meu medo de altura para atravessar pontes sobre despenhadeiros ou descer uma encosta agarrado pela mão... tudo para entender que o mundo das pessoas é também formado pelo mundo em que elas vivem.

No decorrer da viagem, devido à interação com Taís, quando percebi que os rumos que já se constituíam iam de novo se desfazendo e dando lugar a outros rumos, até pus em dúvida o que estava fazendo, até me deixei povoar de reflexões sobre os sentidos que surgiam em minha mente para as reformulações de roteiro, para os diálogos. Mas, passado esse período, vivido um tempo apenas reverberando a viagem sem estar no seu interior, ainda que ela esteja sempre em mim, me fez perceber que o rumo que a presença de Taís deu, que o sentido que tomou a viagem foi um sentido importante para minha vida. Não posso dizer se foi o melhor sentido porque, para isso, o conjunto teria que ter sido de outra forma, mas sei que foi um bom sentido, um importante sentido para me fazer ser-estar-sendo com sinto que sou-estou-sendo hoje.

domingo, 27 de janeiro de 2008

25 de janeiro – o dia de voltar pra casa

Era o último dia em Buenos Aires. Estava ansioso para voltar para casa e saber o que tinha de novo em mim, na minha cidade, nas pessoas que eu amo, nos meus amigos, ou seja, queria saber que novo olhar eu colocaria sobre tudo.

Ao mesmo tempo, tinha a manhã para aproveitar Buenos Aires, para caminhar no centro, para olhar aquele céu azul indescritível, para olhar aquelas pessoas e escutar o seu sotaque.

Mas, parecendo que o universo sabia do meu sentimento dividido entre voltar e permanecer, da minha tristeza-alegria daquele instante, o céu tinha se postado nublado. Estava de cara fechada, como se tivesse de mal comigo.

Mesmo assim, não me mandou a chuva. Me deixou caminhar pelo centro e aproveitar a linda, colorida, apressada, barulhenta e populosa, Buenos Aires.

Tinha acordado às 7h da manhã, movido pela pura ansiedade de retornar e de ficar ali o quanto pudesse naquele último dia, e pude aproveitar mais 4h de caminhada, entre às 9h e às 13h.

Depois de depositar o meu olhar contemplativo, embora apressado e encharcado da Buenos Aires que tanto amo e que me afeta inigualavelmente, depois de encontrar Vinícius na rua, voltei ao Clan, agora, para disfrutar um pouco mais da companhia daquelas pessoas que tanto e tão bem me atenderam nas idas e vindas de minha caminha.

Somente não conseguia interagir com Gonzalo, como sempre pleno de seu estresse e da grosseria que o acompanhava naqueles momentos agoniados. Pelo menos, podia brincar com Julio, com Emiliano, com Leandro, com uma menina novata, cujo nome não lembro, com Silvana e com Mari.

Tirei uma última foto com algumas dessas pessoas, falei com Rob, que, de novo, estava no Clan, com Roberto e tomei o rumo do aeroporto.

Enquanto aproveitava os meus últimos minutos de interação com aquele lugar, tive o prazer de ser conduzido por um taxista (infelizmente não perguntei o seu nome nem ele me disse espontaneamente) muito simpático, cheio de estórias, alegre pela vista de tantas pessoas. Quando, diante de sua pergunta sobre minha nacionalidade, lhe disse que era brasileiro, ele tomou um susto.

Segundo ele, porque nunca tinha visto um brasileiro com um espanhol como o meu.

Aproveitei que ele havia me falado sobre isso e dialoguei um pouco sobre a questão da suposta rivalidade entre os argentinos e brasileiros, originada pelo futebol. Nossa conversa foi ainda mais reforçada quando passamos pelo centro de treinamento da seleção argentina e quando lhe contei o episódio que vivenciei em Córdoba.

Sua resposta foi simples e segura: há gente idiota disposta a tudo.

Consciente de que, como brasileiro, não era malquerido naquele lugar, cheguei ao aeroporto. Era como se tudo o que tivesse ido fazer naquele país fosse ter a certeza de que, como brasileiro e por causa de futebol, não precisava ser odiado pelas pessoas. De que podia dialogar, construir compreensões de mundo, unir lutas...

Passei pelo “check in”, paguei a taxa aeroportuária de U$ 18,00 e fui para a sala de embarque. Aí, enquanto esperava por quase duas horas de atraso do vôo JJ 8005 para São Paulo, resolvi tentar mais uma vez falar com Juan. Em vão. Liguei, portanto, para Sérgio. Tinha poucos créditos no cartão telefônico e não pude falar muito. Inclusive, não consegui dizer adeus.

Pode ser que esta seja uma forma de voltar a ver este amigo e a linda Argentina.

Perto de 18h30min. partir da capital portenha e, por volta de 21h, cheguei a São Paulo. Quando sobrevoava a cidade, em procedimento de aterrissagem, empreendi uma conversa com duas mulheres que estavam do meu lado. Chamavam-se Sandra e Márcia. Não sei de que modo, começamos a falar sobre as nossas viagens, sobre nossas experiências, até que contei um pouco de tudo o que havia passado.

Rapidamente, elas se interessaram em saber um pouco mais e conhecer o meu diário de bordo, postado na internet. Márcia queria mostrá-lo a sua filha, também no vôo, estudante de jornalismo que vai, no próximo semestre, cursar uma disciplina sobre turismo, mas também queria tomar contato com a minha vivência e com as fotos com que o deverei ilustrar.

Depois que descemos, fizemos todo o procedimento de entrada no país, passamos pela polícia federal e pela alfândega, pegamos as nossas bagagens e nos despedimos.

Quando estava na sala de embarque para pegar o avião para Aracaju, fazia o olhar passear em busca de alguém conhecido. No primeiro momento, a única pessoa com quem tomava contato era um senhora que, apesar de muito simpática, não parava de falar. Me contava estórias de sua família, me dizia que iria a Aracaju para a formatura em enfermagem de uma afilhada sua...

Enquanto conversamos, tivemos a presença de uma mulher no nosso diálogo. Eu sabia que a conhecia de algum lugar, até que ela revelou que se chamava Simone e que era juíza da 3ª Vara Cível de Aracaju. Foi a oportunidade para que ambas soubessem que eu era advogado e que fazia mestrado em direitos humanos.

A partir daí a primeira mulher com quem conversava só me chamava de doutor. Era muito engraçado.

De repente, outra pessoa conhecida, Wellington Mangueira. Rapidamente, nos falamos porque ele, além de falar com Simone, estava com dor de ouvido. Não queria incomodá-lo.

Quando começou os procedimentos de embarque, me despedi de Simone, que iria para Florianópolis visitar uma filha e segui com a minha bem falante mais nova “desconhecida” amiga. Digo desconhecida porque não sei o seu nome, porque é uma das pessoas que marcaram a minha vida, cujo nome não sei.

Dentro do avião, na poltrona 5F, só para saber que o mundo é feito de grandes, médias e pequenas contradições, me deparei com duas meninas. Pela vestimenta, pela forma de falar, pelos assuntos, e, principalmente, pela tentativa de dialogar frustrada que tive come elas, descobri que se tratavam de um perfil elitista e pouco sociável em relação aos “reles mortais” como eu. Calei e me fiz acompanhar, tal qual tinha feito em uma parte da primeira etapa daquele retorno para casa, pelo samba de Maria Rita.

Ao som daquela suave e humana mulher, cheguei a Aracaju e tive minhas reflexões interrompidas pela minha amiga que gritava incansavelmente “doutor” “doutor”... para que eu pegasse sua mala, a primeira que aparecera na esteira.

Sob os risos e sob a alegria de saber que podia fazer parte da felicidade de uma sergipana residente em São Paulo ao voltar para sua terra natal, não exitei em ajudá-la. Em seguida, nos despedimos e fui buscar minha mãe. Queria abraçá-la. Mas, igual ao que me aconteceu quando voltei da Espanha em 2001, não havia ninguém para me esperar.

Supus que havia esquecido, como da outra vez. Esperei por meia hora e peguei um táxi para voltar para casa.

Com a simpatia de mais um taxista desconhecido, cheguei em casa e descobri que minha mãe tinha ido para o aeroporto.

Enquanto não chegou, perto de 2h da manhã, não fui dormir. Mas, foi só chegar, ouvir suas reclamações, que, aliás, continuavam as mesmas, para que eu fosse deitar.

Imaginava, também, que tudo podia ser diferente daquilo que se mostrava num primeiro instante com a minha mãe. Que a admiração e o carinho que sinto por ela, não precisa nos levar a vivenciar freudianamente nossa relação.

No sábado, enquanto esperava minha irmã e meus sobrinhos, para irmos para a casa de meu irmão, perto de 18h, resolvi ligar a TV e, no canal público brasileiro, passava um documentário (Kollasuyo é o nome) sobre a luta dos indígenas no norte da Argentina e na Bolívia.

Parecia um presente e uma forma de, em mais esta coincidência, ter a compreensão de que a experiência daquela viagem me povoaria por muito tempo. Com lágrimas nos olhos enquanto reconhecia os lugares, a Quebrada de Humauaca, La Quiaca, a fronteira da Argentina com a Bolívia, Villazón, Potosí...

Em Potosí, as minas do Cerro Rico, as mulheres com suas vestimentas típicas (polleras), as injustiças da exploração daquele povo...

Naquelas imagens podia reviver todos os meus sentimentos ao tomar contato com aquele povo, com a forma como os brancos agem injusta e desrespeitosamente com os indígenas e com a incomunicabilidade, apesar das fronteiras impostas pela geopolítica que lhes pertence, de seu território. Mas, em tempo, tinha impressão de, não obstante as contradições do nosso governo federal, liderado pelo Partido dos Trabalhadores, pela primeira vez, o Brasil voltar-se para a América Latina, em relação a que sempre esteve de costas.

E, não era só por causa do documentário que se perguntava e perguntava “onde está a América Latina?”, era porque, pela primeira vez, com a criação de uma TV pública nacional e com a programação com a qual tomei contato antes de viajar, podíamos olhar os povos tradicionais latino-americanos sem julgamentos indevidos e injustos em relação ao seu de viver, mostrando sua cultura, suas lutas, a beleza de seu modo de viver e de superar suas contradições.

Com este documentário, por outro lado, pude compreender que me sinto preparado para olhar, para inebriar-me, para indignar-me com as injustiças, bem como para povoar-me do sentimento e das lutas latino-americanas.

Mais uma vez a descoberta: EU SOU LATINO-AMERICANO!

É assim que volto para casa, LATINO-AMERICANO.