sábado, 22 de dezembro de 2007

As Moiras




Tive curiosidade de saber o que significava las Moiras e vi em um papel no hostel, em Bariloche que las Moiras eram as deusas gregas do destino. Alguns dizem que sao filhas de Zeus com Têmis, a deusa da lei. Outros dizem que as Moiras sao filhas de Nix, Horas, que tinha a capacidade de auto-fecundacao.
Em wikipedia, encontrei diferentes histórias em português e espanhol. Assim, que escolhi a que me pareceu mais razoável e resolvi transcrever para que se entenda melhor o que significam as Moiras.

As moiras eram três irmãs que determinavam os destinos humanos, especialmente a duração da vida de uma pessoa e seu quinhão de atribulações e sofrimentos.

  • Cloto (em grego "fiar") segurava o fuso e tecia o fio da vida.
  • Láquesis ("sortear") puxava e enrolava o fio tecido, e sorteava o quinhão de atribuições de cada vida;
  • Átropos ("afastar") cortava o fio. Determinava os que iam morrer.

As moiras eram filhas de Nix. Moira, no singular, era inicialmente o destino. Na Ilíada, representava uma lei que pairava sobre deuses e homens, pois nem Zeus estava autorizado a transgredi-la sem interferir na harmonia cósmica. Na Odisséia aparecem as fiandeiras.

O mito grego predominou entre os romanos a tal ponto que os nomes das divindades caíram em desuso. Entre eles eram conhecidas por parcas chamadas Nona, Décima e Morta, que tinham respectivamente as funções de presidir a gestação e o nascimento, o crescimento e desenvolvimento, e o final da vida -- a morte; notar entretanto, que essa regencia era apenas sobre os humanos.

Os poetas da antiguidade descreviam as moiras como donzelas de aspecto sinistro, de grandes dentes e longas unhas. Nas artes plásticas, ao contrário, aparecem representadas como lindas donzelas. As três deusas decidiam o destino individual dos antigos gregos, e criaram Têmis, Nêmesis e as Erínias. Pertenciam à primeira geração divina, e assim como Nix eram domadoras de deusas e homens. Junto de Ilitia, Ártemis e Hecate, Cloto atuava como deusa dos nascimentos e parto. Láquesis atuava junto com Tiche, Plutão, Moros, etc. qualificando o quinhão de atribuições que se ganhava em vida. Atropo juntamente a Tânatos, Queres e Moros, determinava o fim da vida.

Apesar de toda essa história, minha reflexao sobre isso tudo, enquanto vinha para o Chile, durante toda a tarde de hoje, era se temos, de verdade, um destino...

Se existe para o ser humano, o destino deve ser construir a história. A todo momento, estou pensando nisso e observando como minha vida muda sempre. Minhas buscas têm sido incessantes e isso me leva por caminhos novos sempre.

Topar com a história das Moiras hoje foi uma forma de comprender isso. O que aparentemente pode ser um paradoxo que, em princípio, se nega e se assume, como aquele que diz que ser diferente é normal, para mim, acreditar que existe um destino, é assumir que o destino do ser humano é produzir a história. É como diz Paulo Freire com a compreensao de que o ser humano tem como essência o estar-sendo, uma vocacao para "ser mais". É dar-se o cotidiano de mudancas.

Jamais pensei que tomaria um caminho como aqueles que tomo agora. Ao assumir o caminho dos direitos humanos, percebi que a relacao com estes direitos fica ainda mais forte. Nao que nao haja contradicoes ou que nao se aceite mudancas nos direitos e na forma de pensar sobre eles. O que passa é que se aprende direitos humanos, vivenciando direitos humanos, testando-se enquanto ser humano numa relacao como todas as pessoas, ao mesmo tempo que sensibilizando esse ser através do mundo que lhe afeta.

Agora, estar "só", caminhando por uma parte da América Lartina, pode ser isso, afetacao, querer deixar-se tocar pelo mundo, refletir sobre isso, encontrar o que um "eu" pode ser-estar-sendo.

Assim que, passar por montanhas nevadas, ver a neve bem de perto, pisar, uma segunda vez, o sólo Argentino, conhecer o Chile... ter as emocoes dos encontros que estou tendo... isso tudo vai formar um ser, já estar formando um ser, eu espero. Talvez, mais consciente ainda de suas escolhas, por isso, que nao aceitar negciar certos valores e coisas; talvez, mas sensível aos problemas do mundo, mais direcionado ainda a doacao...

De qualquer forma, se as Moiras existem..., somos amigos íntimos e elas sabem que meu destino é a construcao de minha história e, isso, faco eu, de acordo com o modo como leio o meu mundo.

Uma tarde em Bariloche

Nao sei porque as pessoas falam tanto de Bariloche, inclusive na Argentina. Todo mundo parece sonhar em conhecer esta cidade que, a parte a vista, nao vi nada demais.
Evidentemente, quem tem dinheiro pode aproveitar mais coisas: grandes e caras boates, restaurantes finos, passeios de aventura ou sem tanta aventura assim...
É um lugar turístico cuja única parte da cidade interessante pra se conhecer é o centro cívico, que mais parece com aquelas casinhas do exército playmobil. Acho até que tiraram daqui o modelo para aquele brinquedo... isso se os americanos nao tivessem fundado o modelo exploratório para "combater" (ou melhor, destrocar) os índios do oeste. Aqui é a mesma coisa.
Durante toda a tarde caminhei... buscava algo que pudesse ver sem precisar pagar, onde eu pudesse encontrar pessoas pra conversar... nao encontrei nada mais que lugares para turistas. Nem se pode saber quem é mesmo daqui.
Onibus e mais onibus deixam pessoas pelas ruas. Os jovens de Buenos Aires em férias, caminham em grupos grandes, todo o tempo cantando... isso é bonito de ver.
Agora sei porque nos jogos de futebol eles nao param de cantar. Parece que eles cantam sempre quando estao em grupo.
Bom, depois de muito sol na cabeca, resolvi voltar para o hostel. Aliás, é a primeira vez, fora quando estive na Espanha, que estive em um hostel tao organizado, onde nao se permite o barulho, com lecol de qualidade, um colcha limpinha, banheiro limpo...
Normalmente, a rotatividade é tao grande que nao dá pra ser tao organizado, eu achava. Agora, sei que isso é uma questao de prioridade e respeito.
Las Moiras é o nome. Fica na calle Reconquista, pertinho do centro cívico.
Depois que voltei para o hostel, fiquei meio que rodando sem saber o que fazer. Foi quando Gabriel, o menino do Canadá, me chamou para um passeio. Isso foi bom para aprender ingles. Ficamos um tempo caminhando. Fomos a catedral, a uma parte do lago Nahuel Huapi. A paisagem estava muito linda com o final da tarde. Resolvemos voltar para o hostel para pega nossas cameras. De um lado, a lua, quase cheia, saía de umas montanhas amareladas pelo sol, de outro, o sol, com o vapor frio das montanhas nevadas, dava uma cor que mesclava um laranja com o azul do céu e da água.
Fora isso, me chamou atencao a quantidade de casais que namoravam aí, na borda do lago. As demonstracoes de carinho eram muito bonitas e, algumas exageradas. Em um momento, percebi que os estrangeiros se assustam um pouco com isso. Os estrangeiros do norte, porque nós do Brasil e de outras da América Latina já estamos acostumados com isso, eu acho.
Quando saímos daí, ficamos caminhando pelas únicas duas ruas movimentadas de Bariloche. Havia muita gente aí. A temperatura comecava a baixar. Eu nao queria ficar em lugares com tantos turistas e, Gabriel queria comer.
Bem perto do Centro Cívico e do Hostel, havia um "pub" que nao tinha tanta gente e oferecia comida. Ficamos por aí um tempo e depois voltamos para o hostel.
Ficamos conversando Gabriel, um casal de japoneses e eu. Eles iriam para uma boate a noite, me convidaram, mas nao quis ir. Meus motivos sao outros com esta viagem. Por isso, precisava dormir para sair para o Chile hoje.
As dez e pouco tomei a companhia do único livro que toruxe, "Os condenados da Terra", de Frantz Fanon. Li algumas páginas, refleti um pouco sobre o dia e fui dormir.
A cabeca nao sabia em que língua pensar. Era como se, no lugar das palavras, viessem figuras, de tanto que fui exigido em outras línguas. Essa é uma indicacao de que o nosso cérebro pode se programar e se programar com muita facilidade pra encontrar o novo. É uma prova que nao devemos temer novas experiencias, porque as respostas aparecem. De um jeito ou de outro aparecem.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

De San Martín para Bariloche

Acordei muito cedo… fazia frio e, as 8h30min. Tinha que estar na rodoviária para pegar um onibus para Bariloche. Na verdade, nao era minha intencao chegar até Bariloche, mas nao tinha passagem direto para Valdivia Chile.
Bariloche é muito turística e, normalmente, as pessoas estao aí só para “consumir” o que a cidade tem para oferecer em termos de belezas naturais. Aliás, que linda é cidade. Fica na beira de um lado, com montanhas cheias de neve ao fundo.
Bom, saí as 9h e um pouquinho de San Martín pelo caminho dos sete lagos. Eram lindas as paisagens que se abriam ao final de cada curva ou abertura de bosque. Sempre com muitas montanhas com cume com neve ao lado directo, lagos azuis…
Uma parte da estrada nao é asfaltada. Nao se por que está dentro de um parque nacional (Lanin) ou porque estava sem asfalto mesmo.
O cansaco era imenso, mas nao queria perder um segundo da paisagem.
Em algum momento, o motorista paro a beira de um peñasco, segundo ele para descansar. Foi o momento para fotos. Todos do micro-onibus desceram e comecaram a tirar fotos da montanha e do lago que tínhamos ao fundo. Mais adiante, vi que estavam fazendo alguns reparos na estrada de terra.
Isso foi muito engracado!
Quando passávamos, os trabalhadores acenavam. No início, pensei que era para o motorista, mas, de repente, notei que era para todo mundo. As pessoas também notaram e comecaram o corresponder. Parecia haver uma vontade grande de se comunicar.
Depois de quase 4h, apesar de a distancia entre San Martín e Bariloche ser de 193Km, cheguei a Bariloche. Pedi informacoes, peguei um onibus para o centro da cidade. Aí, fui ao centro cívico, onde podem informar sobre hosteles e passeios turísticos. Peguei uma indicacao e desci para o Hostel Las Moiras, bem na borda do lago Nauel Huapi.
Agora, estou num quarto com um rapaz do Canadá. Outro que nao fala nada de espanhol. Assim, vou acabar aprendendo bem ingles. Mimi, minha profesora vai ficar orgulhosa de mim quando souber que estou praticando o que me ensinou.
Evidente que eu tento, me comunico, entendo algumas coisas, mas nao sei se consigo dizer muito.
De qualquer forma, estou conhecendo pessoas e, até amanha, quando saio para Valdivia, terei tempo para treinar.

Sobre Mónica...

Conheci Mónica quando estava na Espanha, em 2001. Foi a primeira pessoa com quem me deparei na rodoviária em Huelva. Necesitábamos chegar a Universidade Internacional de Andalucía, Sede Iberoamericana de Santa María de la Rábida, mas ninguém sabia explicar onde ficava. Como estava descrito no documento que nos haviam enviado da Universidade, tomamos o onibus para Palos de la Frontera, mas nao sabíamos onde descer. No onibus se juntou a gente um outro perdido. Era o chileno Alberto Haranda. Pedíamos informacoes mas, as pessoas queriam que descessemos na Universidade de Huelva, outra universidade. Sabíamos que nao era aí o nosso destino. Em um momento, uma senhora nos disse que era uma parada adiante. Aí, todos lembraram onde era o que buscávamos. Descemos e ficamos rodando sem encontrar a UIA, que ficava no meio de um bosque. Até que entramos numa casa e um senhor nos indicou o caminho.
Bom, essas eram as lembrancas que tínhamos quando vínhamos da praia ontem…
Dizem que para conhecer alguém ou viaje ou more junto. Talvez, isso seja mais profundo quando alguém se hospeda na casa do outro. Agora, pude conhecer Mónica e comprovar a generosidade que tinha quando nos encontramos na Espanha. Fora isso, seu compromisso com as pessoas, sua necessidade de envolver-se com coisas que valham a pena.
Ontem a tarde quando estávamos na escola técnica, Mónica fotografava no microscópio uma alga tóxica que encontrou em San Martín de los Andes. Segundo ela, é do tipo que matou mais ou menos 40 pessoas que faziam hemodiálise em Caruaru há algum tempo. Ainda nao se coñéese muito bem isso. Só se sabe que, quando se poe cloro na água para a limpeza, elas se rompem e liberam uma toxina. Com o calor, elas se reproduzem mais rápido. E, isso pode se tornar mais forte com as mudancas climáticas.
Por isso, é um anseio de Mónica, pesquisar mais profundamente esta alga. Posivelmente, fará um doutorado com este tema. Parece nao querer se dedicar a algo “puro”, como normalmente fazem os cientistas que se creem neutros. Sabe que a universidade é um espaco onde deve estar a preocupacao com o mundo real.
Com bióloga, sabe dos perigos que o planeta corre (já esteve pesquisando na Antártica por um tempo), mas nao tira o sorriso do rosto. É incrível como se mostra sempre aberta as pessoas. Na rua, pára todo o tempo para falar com as pessoas, todos fazem questao de cumprimentá-la…
É sempre doce e delicada, mesmo quando precisa dizer algo mais forte. É verdadeira!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

o dia em San Martín de los Andes

Quando acordei às 8h30min. Mónica já estava de pé fazia tempo. Ela trabalhava no computador
Tomei um banho e a esperei lavar a roupa, organizar algunas coisas e fomos ao “pueblo”. Aí está o lago Lacar e a praia de Catritre, onde iríamos depois de que Mónica pagasse seu aluguel, resolvesse algumas coisas de seu trabalho em San Martín e eu conseguisse comprara passagens para ir ao Chile.
Como nao consegui uma passagem direto a Valdivia, terei que descer ainda mais ao sul da Argentina, para Bariloche, de modo que possa tentar encontrar um ônibus que saia daí para o Chile até o sábado. Comprei passagem por um caminho para Bariloche que vai pela rota dos sete lagos, lagos andinos, às margens da estrada.
Às 12h, estávamos com tudo pronto para irmos a uma praia do lago Lacar, que é um dos lagos que vou encontrar no caminho para Bariloche.
Na ida, num táxi, me encantei com a paisagem. Da estrada, era possível ver logo abaixo o lago enorme e azul . Ao fundo, umas montanhas com o topo nevado e, ao redor, muitas cores. O céu, por exemplo, tinha um azul impressionante.
Evidentemente, nao deixei passar isso sem um registro. No reflexo, pedi ao motorista que parasse um momento para fazer umas fotos.
Alguns minutos depois, já estávamos na praia onde passamos toda a manha. Era lindo ver aquela paisagem.
O sol estava muito quente, a água muito gelada, as pessoas se metiam na água junto com os cachorros e ficavam todo o tempo brincando. Como neste lugar, durante todo o ano faz frio, um dia de calor é como um renascimento. Tudo se desabrocha: as crianças, os cachorros, os adultos, as plantas…
Para passar o tempo, o esporte é brincar de galinha d’água, aquela brincadeira de jogar pedras na água para que saiam meio que planando.
Ficamos aí até umas 14 h e, depois percorremos alguns a praia até um camping Mapuche, importante tribo indígena do sul da Argentina. Quando chegamos aí, Mónica me contou que os indígenas Mapuche estao muito organizados por aquí. Têm conseguido grandes êxitos em sua luta. Uma coisa importante é que conseguiram abrir a universidade a suas reivindicaçoes e a seus integrantes. Por isso, inclusive, consegiram demarcar uma parte de suas terras nos Tribunais, através de seus integrantes formados em direito.
Depois daí, resolvemos voltar ao “pueblo” camihando. Eram mais ou menos 6km de subidas e decidas, algumas partes em pura terra e poiera, mas o que queria era desfrutar do sol e do vento frio que faziam, fora a grande paisagem.
Durante todo o caminho, vim tirando fotos, olhando as flores, sobretudo, rosas mosquetas que nascem naturalmente quando se vai embora a neve.
Depois de uma hora e meia, chegamos ao “pueblo”. Estava com fome e muito cansado, com os tênis cheios de areia, mas Mónica precisava ir à Universidade e a uma escola fechar seus trabalhos. Tomamos um sorvete maravilhoso, artesanal, e fomos resolver as coisas de Mónica. Enquanto isso, minha vontade era de tomar um bom banho e deitar. Mas, acabei vendo uns adolescentes jogando basquete na quadra da Universidade. Tinha vontade de pedir para jogar, mas estava muito cansado para fazer qualquer esforço.
Fiquei só olhando mesmo…
Depois, quando Mónica veio ao meu encontro, me disse que uma senhora a havia convidado para um jantar às 22h. Assim, teríamos que voltar a casa, tomar um banho e vim para o “pueblo”. Fomos a rodoviária, compramos uns “alfajores”, um doce muito gostoso, típico da Argentina, e pegamos o ônibus para casa.
Só foi pisar os pés na sala, meu cansaço bateu de verdade. Depois que tomei um banho entao… nao podia nem pensar em sair. Além disso, estava preocupado em nao dormir muito tarde e nao perder a viagem para Bariloche.
Assim, pedi a comprensao de Mónica e fiquei em casa organizando minhas coisas, refletindo sobre o dia, escrevendo…

A viagem para San Martín de los Andes

Se se pode dizer uma coisa sobre os ônibus na Argentina é que, apesar de ter seus horários marcados em horas cortadas como se fossem cumpridores de horários, o meu ônibus, por exemplo, sairia às 20h47min., nao estao marcados pela pontualidade britânica.
Imagine o fato de já estar há mais de uma hora com duas mochilas nas costas e ter que esperar mais meia hora até que o ônibus chegasse ao Terminal…
Quando sentei na poltrona, estava morto… só queria dormir, mas o trânsito em Buenos Aires estava muito grande. Nao havia tranqüilidade para isso.
Em alguns minutos, no entanto, quando saímos do miolo central da cidade, já começava a ter os olhos pegando…
Às 22h30min. Quando veio a janta (ônibus na Argentina serve comida), meus olhos nao consegiam abrir, mas, como a dor é quem ensina a gemer, tinha fome também e ela me dizia para acordar, pelo menos, enquanto comia.
Depois, foi só dormir, nem o ronco do senhor que estava do meu lado nem a dor que sentia no joelho direito, me tiravam o sono.
Quando acordei pela manha, estava no meio de uma regiao semi-desértica na Patagônia. Era lindo ver aqueles pradeiros amarelinhos…
Em mais 4h de viagem, a paisagem começa a mudar. De repente, ao longe, se mostra a Cordilheira dos Andes. Montanhas altas, com neve no cume…
Mais perto de San Martín de los Andes, em Junin de los Andes, vía uma montanha pontuda, cheia de neve, meio azulada, Na verdade, um vulcao (Inin). Em algum momento, ela se unia aos lagos, vales, pinheiros, flores amarelas e roxas que estavam postos ao longo da estrada. Era lindo! Aliás, nunca vi coisa tao linda em toda a minha vida. Era uma pena nao poder parar para tirar fotos. Mas, decerto, aquelas imagens ficarao guardadas na minha lembrança.
Com uma hora exata de atraso. Cheguei a rodoviária de San Martín. Mónica estava aí me esperando. Foi uma emoçao reencontrá-la depois de 6 anos. Conversamos um pouco e tomamos um táxi para a casa dela, que fica no pé de uma montanha. Se parece uma casa de bonecas. É linda! Quase toda em madeira amarelada.
Mónica preciva ir à escola onde dá aulas e me deixou em casa escrevendo as experiências de ontem, para que depois, perto de 20h30min., a encontrasse na escola. Infelizmente, toda a última tarde em Buenos Aires se perdeu. Nao sei porque, a página do blog apagou tudo. Nem rascunho havia guardado…
Com um completo desapontamento, fui tomar banho para encontrar Mónica no centro e, quando nos encontramos, foi o primeiro que lhe disse. Era nítido que me sentia mal de perder tudo o que havia pensado, que havia exposto com uma emoçao que depois nao se recupera.
Como águas passadas nao movem moinho, deixei essa conversa de lado e ficamos caminhando por San Martín, uma cidade bem pequeninha, com muito turismo, linda e, que mesmo no verao, faz frio, sobretodo à noite. Mónica conhece todo mundo. Na rua, tínhamos que parar, falar com as pessoas… o que era muito bom para mim. Era como se estivesse participando da vida daquelas pessoas sem a condiçao de turista.
Mais adiante, próximo ao lago, Mónica olhou para o céu e percebeu que estava todo laranja. Imediatamente, tirei minha câmera e comecei a sessao fotografia. Era lindo de ver o lago com um céu laranja, rosa, azul…
Passadas as fotos, voltamos caminhando até um restaurante (“Por la vida”) onde vendia comida vegetariana e ficamos por aí. Comemos, conversando até umas 22h, quando pegamos um ônibus para a casa de Mónica, que ficava um pouco afastada do centro. À parte a idade do bichinho que nos levava e fato de, em cada ponto se encher de gente, conseguimos chegar em casa saos e salvos. Com um pouco de frio, mas saos e salvos.

Minha última tarde em Buenos Aires...

Depois de uma manha, de novo, caminhando pela cidade, agora para comprar passagens para San Martín de los Andes, voltei ao hostel. Aí estava na rececpçao Nacho, Rob (um australiano muito engraçado) e Owen (o canadense fanfarrao de quem sempre falo).
Rob e Owen estavam bebendo e coversando e, quando cheguei, Owen me chamou, me ofereceu uma bebida e, como sabia que nao iria aceitar, ficou brincando comigo porque sou vegetariano, por nao beber e por caminhar todos os dias pela cidade.
Em seguida, chegaram uns franceses e ele lhe disse que eu falava francês. Um dos três se aproximou e começou a conversar comigo. Perguntou-me se havia estado na França, se já havia tido um contato mais profundo com a língua. Disse-lhe que nao, que meu aprendizado tinha sido na Aliança Francesa em Aracaju. Ficou impressionado com a forma como falo francês, sem sotaque brasileiro (segundo ele, nunca tinha visto nenhum brasileiro falar francês dessa forma) e me chamou para sair com seu grupo e poder praticar um pouco.
Como eu teria que arrumar minhas coisas, além de querer ficar mais tempo no hostel para aproveitar mais do lugar e fazer, como que um desligamento, decidi nao ir. Por outro lado, era também o último dia de Fernando em Buenos Aires e Leandro havia chamado todos os brasileiros para um almoço em conjunto.
Acabamos indo os três, porque Vinícius e Roberto (ambos do Rio de Janeiro, nao foram). Além disso, senti que o que Leandro queria era estar perto das pessoas do seu país. Estava fora havia três meses, e essa era a forma de reencontrar consigo mesmo.
Na ida para o restaurante, me dei conta de que na esquina da rua onde iríamos comer, havia uma estátua de Quixote em um cavalo. Fiquei com muita vontade de tirar uma foto do monumento para ilustrar meu blog, mas deixei isso para a volta. Já passava das duas da tarde, os meninos estavam com fome e eu também.
Bom, almoçamos, brincamos, conversamos sobre os dias passados...
Na volta, paramos, tirei as fotos e voltamos até o hostel, onde Rob e Owen ainda estavam bebendo e Nacho morrendo de rir. Fiquei por aí pela recepçao.
O clima estava muito bom e achei que precisava registrar aquele momento. Organizei a câmera e começamos a tirar fotos. Até Nacho, que é Argentino, tirou fotos com a bandeira brasileira.
Em algum momento, me dei conta de que precisava subir para organizar minha mochila, o que fiz em meia hora para voltar para a brincadeira. Owen, que passou todos os dias e, mais precisamente, esta terça-feira, me desafiando a falar inglês, estava mais “alegre”. Quase se embaralhava nas palavras.
Rob, que falava comigo como se fosse um nativo australiano, começou a me contar de suas aventuras por dois meses no Brasil e, em seguida, me pediu para ensinar-lhe como se falavam as partes do corpo em espanhol. Com uma caneta pilot, tratou de escrever em si mesmo, “muñeca”, “mano”, “dedo”, “codo”, “ombro”, “pierna”, “rodilla”, “tobillo”, “brazo”... quando lhe pedimos para escrever na testa “frente”, sua resposta foi a melhor: - aí, eu nao posso ver.
Todo mundo, de fala inglesa, que chegava, ele mostrava as partes do corpo e repetia as palavras. Era muito engraçado! E, claro, todos queriam saber se havia escrito algo na bunda também. Mas, ele dizia: - se tivesse que escrever algo, escreveria na “pistola”, como os argentinos chamam a pinta.
À parte a brincadeira, estava sempre atento para ver quando ficava vago o computador. Precisava ter a certeza, depois de ter enviado e-mails a Mónica, de que ela me pegaria na rodoviária em San Martín. De repente, quando estava olhando os correios eletrônicos, percibi que Dieter (um amigo norte-americano que se casou com Verónica, colega do mestrado em Direitos da Criança e do Adolescente) me havia enviado um e-mail. Segundo ele, estaria chegando na Argentina de supresa para batizar sua filha Sofia. Sua permanência seria de três dias. Mas, queriam me ver.
Tentei ligar para o número que indicou como da casa da familia de Verónica, mas a chamada nao se completava. Envei um novo e-mail e pedi número correto. Mas, Dieter nao me respondeu.
Enquanto estava tentando falar com Dieter, ao mesmo tempo, coversando com Ana (minha amiga de Salvador) e Vanessa (de Aracaju), pelo MSN, Nir veio se despedir de mim, porque precisaria sair rapidamente para resolver coisas suas no centro. Esse momento, foi difícil. Sabia que tinha que me apartar das pessoas com quem mais tinha afinidade. Logo logo seria com Nick e com Henrietta.
Mas, enquanto isso, fiquei por ali pela recepçao, brincando com Nacho, Rob e Owen. Tudo era engraçado demais.
Em certo momento, Owen estava tao bêbado que nao tinha controle sobre seus movimentos. Virou um copo de rum com coca-cola por cima de Rob e, sem graça, foi buscar um papel higiênico para limpar o chao. O problema disso tudp é que mal conseguia se agachar. Imagine um bêbado nesta tarefa…
Já era por volta de 17h quando subi para tomar um banho, fechar o mochila e descer para fazer o check out. Quando voltei, Owen estava com a camisa de Rob e vice-versa. Segundo Rob, a partir daquele dia, no Clan Hostel, estava marcada a terça-feira das trocas de camisas. E, sempre deveria acontecer às 17h30min.
Todos que chegavam eram incentivados a fazer trocas. De repente, Owen propôs a troca da camisa que Rob lhe havia presenteado com um Argentino. Mas, nesse momento, as trocas se acabaram para Owen. É deu uma camisa com motivos de capoeira, em perfeito estado, e recebeu uma rasgada. Evidentemente, ninguém iria querer uma camisa rasgada.
Eu olhava para aquilo tudo e já me dava saudade. Eu sabia que ninguém iria permanecer ali por muito tempo, mas, de qualquer modo, me dava saudade… das pessoas, das vivências, das brincadeiras, dos encontros que tinha tido ali. Às 19h, comecei a me despedir das pessoas e do hostel. E, quando descia as escadas, uma surpresa, as pessoas gritavam desejando uma boa viagem, desejavam que meus projetos se realizassem, batiam palmas. Fiquei muito emocionado, queria ficar, mas sabia que tinha que ir.
Ainda na escadaria, encontrei Érica, que me disse que seu visto para Inglaterra tinha sido aprovado. Comemoramos isso e nos despedimos calorosamente. Ao final, ela me desejou sorte na viagem para que encontrasse o que buscava.
Caminhei por alguns metros com a cabeça em tudo o que tinha passado naqueles dias… peguei o metrô e fui até a rodoviária pensando, apesar de cansado, com dor nas costas, de carregar as mochilas. Neste momento, a avenida de Mayo era pequena para os meus pensamentos.